No Guru Talks, no dia 03/09/2026 André Cruz, CEO e cofundador da Digital Manager Guru, explorou ao relacionar a jornada de Odisseu aos dilemas enfrentados por empresários no mercado digital.
Ao longo da análise, quatro passagens ganharam especial importância: o Cavalo de Troia, o canto das sereias, a travessia entre Cila e Caríbdis e o retorno a Ítaca.
Cada uma delas representou um problema recorrente da gestão empresarial: competir sem depender de força bruta, preservar o foco, escolher entre alternativas difíceis e evitar a complacência depois de conquistar espaço no mercado.
- 1. Por que Odisseia e empreendedorismo têm tanto em comum
- 2. O Cavalo de Troia: diferenciação venceu a força bruta
- 3. O canto das sereias: o perigo da falta de foco
- 4. Cila e Caríbdis: decisões difíceis fizeram parte da gestão
- 5. O retorno a Ítaca: nenhuma posição de mercado esteve garantida
- 6. Conclusão
Por que Odisseia e empreendedorismo têm tanto em comum
[01:47] André Cruz compara Odisseu ao arquétipo de um CEO
André Cruz apresentou Odisseu não apenas como um herói da mitologia grega, mas como uma figura que enfrentou muitos dos problemas encontrados por um gestor moderno.
O personagem precisou mudar de estratégia, liderar pessoas desmotivadas, atravessar ambientes hostis e tomar decisões sem garantia de sucesso.
Sob uma perspetiva empresarial, o objetivo final também pôde ser interpretado como uma entrega: Odisseu precisava regressar a Ítaca. Para isso, não bastou simplesmente continuar a executar aquilo que já fazia.
Foi necessário mudar.
Essa relação tornou a Odisseia particularmente interessante para fundadores, CEOs e gestores. O caminho até ao resultado raramente dependeu exclusivamente de trabalhar mais. Muitas vezes, dependeu de entender o contexto, escolher melhor e continuar a liderar mesmo quando nenhuma alternativa parecia confortável.
O Cavalo de Troia: diferenciação venceu a força bruta
[04:39] Durante anos, os gregos tentaram vencer Troia através da força. A abordagem tradicional não produziu o resultado esperado.
Foi então que surgiu uma estratégia diferente: o Cavalo de Troia.
Na interpretação empresarial apresentada por André Cruz, a passagem representou uma diferença essencial entre força bruta e inteligência estratégica.
No ambiente digital, força bruta poderia significar aumentar continuamente o investimento em tráfego pago, trabalhar mais horas, ampliar equipas ou tentar superar concorrentes apenas pela quantidade de recursos disponíveis.
O problema surgiu quando empresas maiores já possuíam mais capital, mais audiência, maior distribuição ou maior liquidez.
Competir exatamente da mesma forma poderia significar entrar num jogo em que o adversário já tinha vantagem.
Posicionamento poderia valer mais do que orçamento
[06:33] Para André Cruz, o equivalente moderno ao Cavalo de Troia esteve numa pergunta estratégica:
Como uma empresa poderia entrar num mercado sem competir exatamente segundo as regras dos concorrentes já estabelecidos?
Foi nesse contexto que ele relembrou a própria trajetória da Digital Manager Guru.
Inicialmente, a Guru posicionou-se como uma plataforma de integração, automação, análise, dashboards e relatórios. Ao longo da sua evolução, passou também a conquistar espaço relevante na infraestrutura de vendas online sem cobrança de uma percentagem sobre as vendas dos clientes.
A empresa, portanto, não precisou começar por atacar frontalmente os players que já dominavam aquele mercado.
Entrou com uma proposta diferente.
[08:24] André explicou por que os concorrentes inicialmente não perceberam a Guru como ameaça
Segundo André, essa diferença de posicionamento fez com que a empresa inicialmente não fosse percebida da mesma forma que concorrentes tradicionais.
O exemplo reforçou um princípio importante para empresas SaaS:
diferenciação de produto e inteligência tática puderam compensar uma diferença significativa de capital.
A inovação, nesse sentido, não esteve apenas em mudar elementos superficiais de uma página, campanha ou comunicação.
Ela esteve na capacidade de redesenhar a forma como uma empresa competia.
A lição de gestão do Cavalo de Troia
A principal conclusão dessa passagem esteve na necessidade de procurar vantagens estratégicas em vez de depender continuamente de mais recursos.
Quando um concorrente tinha mais dinheiro, mais notoriedade ou uma equipa maior, imitá-lo poderia não ter sido a melhor decisão.
Uma empresa precisava perguntar onde poderia competir de forma diferente.
Uma boa estratégia poderia tornar desnecessária uma guerra de força bruta.
O canto das sereias: o perigo da falta de foco
[09:49] Na Odisseia, as sereias atraíam marinheiros através de um canto irresistível que acabava por conduzi-los à destruição.
Odisseu encontrou uma forma de atravessar aquele perigo: ficou amarrado ao mastro enquanto os seus homens protegeram os ouvidos.
No mundo empresarial, André Cruz associou as sereias às inúmeras promessas que disputaram permanentemente a atenção de empresários e gestores.
Uma ferramenta de inteligência artificial prometia revolucionar toda a operação. Uma nova rede social surgia como oportunidade imperdível. Um modelo de lançamento prometia resultados imediatos. Um novo método aparecia como solução definitiva para crescimento.
O formato mudou.
O risco permaneceu semelhante.
O maior problema não esteve na ferramenta, mas na mudança constante
[12:12] O problema mais grave identificado por André não esteve necessariamente na existência dessas novidades.
Esteve na perda de foco provocada por elas.
Quando um empreendedor mudou de estratégia a cada poucas semanas, não permitiu que processos amadurecessem, que dados fossem acumulados ou que uma direção estratégica produzisse resultados.
A empresa começou a funcionar segundo o estímulo mais recente.
Esse comportamento criou uma organização permanentemente reativa.
Para negócios SaaS, a situação pôde tornar-se ainda mais perigosa. Produto, aquisição, retenção, customer success e tecnologia dependiam de decisões que precisavam de tempo para produzir sinais confiáveis.
Trocar de direção continuamente aumentou a ansiedade e reduziu a capacidade de execução.
Quais eram os mastros de uma empresa?
[14:53] André questionou quais métricas deveriam funcionar como o mastro de um negócio
A metáfora do mastro levou a outra questão importante.
Uma empresa precisava saber a que deveria permanecer presa quando surgissem novas distrações.
Para André, métricas de negócio poderiam assumir esse papel.
Isso significou dar prioridade a indicadores capazes de demonstrar geração de caixa, sustentabilidade e resultado em vez de perseguir métricas de vaidade utilizadas apenas para criar uma aparência de sucesso.
O mesmo princípio foi aplicado à equipa.
[15:50] A Guru foi usada como exemplo de empresa que evitou reagir a todos os movimentos da concorrência
André relatou que a equipa da Guru recebeu, em vários momentos, informações sobre funcionalidades, estratégias ou movimentos realizados por concorrentes.
A resposta não foi alterar automaticamente o caminho da empresa.
A organização manteve a direção que tinha definido.
A jornada do concorrente não precisava tornar-se a jornada da Guru.
Essa clareza também afetou a liderança.
Quando colaboradores perceberam que um líder alterava constantemente a direção do negócio, a confiança na estratégia poderia desaparecer.
Por isso, foco não significou ignorar o mercado.
Significou saber diferenciar informação relevante de distração estratégica.
Cila e Caríbdis: decisões difíceis fizeram parte da gestão
[18:12] A terceira passagem analisada envolveu Cila e Caríbdis.
De um lado estava um perigo capaz de destruir todo o navio. Do outro, um monstro que inevitavelmente provocaria perdas.
Odisseu precisava escolher.
Não existia uma opção perfeita.
Para André Cruz, essa situação representou uma realidade familiar a qualquer empresário que tivesse atravessado uma crise.
Gestores frequentemente precisaram escolher entre alternativas como reduzir margem ou reduzir estrutura, crescer rapidamente com perda de qualidade ou avançar mais devagar assumindo outro tipo de risco.
Nenhum desses caminhos ofereceu conforto.
Algumas decisões serviram apenas para manter o negócio vivo
[20:58] André explicou por que a Guru optou por crescer mais devagar
Ao trazer a discussão para a Digital Manager Guru, André recordou que a empresa optou por um crescimento mais gradual.
Essa escolha também carregou risco. Segundo ele, a Guru chegou perto de enfrentar uma situação crítica em 2021.
Ainda assim, crescer rapidamente exigiria mais capital. Para financiar essa aceleração, seria necessário alterar outros elementos do modelo económico da empresa.
A administração preferiu outro caminho.
O exemplo mostrou por que uma decisão de gestão não poderia ser analisada apenas pelo resultado desejado.
Era necessário considerar o custo necessário para atingir esse resultado e o que a empresa precisaria sacrificar durante o processo.
O peso da decisão permaneceu com o gestor
[22:23] Outro ponto central esteve no peso da responsabilidade.
Depois de uma decisão difícil, o gestor continuou responsável pelas consequências da escolha.
Essa realidade contrariou uma visão excessivamente romantizada do empreendedorismo.
Gestão não foi apenas crescimento, investimento, notoriedade ou benefícios associados à posição de fundador.
Em determinados momentos, gerir significou decidir qual perda era suportável para evitar uma perda ainda maior.
[23:21] André resumiu o princípio: nem sempre existia uma decisão totalmente boa
A conclusão foi particularmente relevante para gestores:
nem todas as decisões puderam ser boas para todas as partes envolvidas. Algumas foram necessárias simplesmente para preservar a continuidade da empresa.
A competência do líder apareceu, então, na capacidade de tomar decisões sob pressão, compreender o seu custo e assumir a responsabilidade por elas.
O retorno a Ítaca: nenhuma posição de mercado esteve garantida
[25:48] Depois de uma longa jornada, Odisseu finalmente regressou a Ítaca.
Mas regressar não significou simplesmente sentar-se novamente no trono.
O seu reino estava ocupado por pretendentes que disputavam aquilo que lhe pertencia.
Na interpretação empresarial, esse momento representou uma fase especialmente perigosa para empresas que já tinham alcançado algum sucesso.
Quando uma organização construiu algo relevante, surgiram novos concorrentes, produtos semelhantes, conflitos e outras ameaças externas.
Mas existiu também um risco interno: a complacência.
O sucesso passado poderia transformar-se num risco
[27:44] André alertou para o perigo de uma empresa acreditar que já tinha vencido
Uma empresa começou a ficar vulnerável quando passou a minimizar problemas porque acreditava ter conquistado uma posição definitiva.
Mercados digitais mudaram rapidamente.
Clientes mudaram de comportamento. Tecnologia evoluiu. Novos modelos de negócio surgiram. Concorrentes encontraram novas formas de distribuição.
Por isso, a posição conquistada num determinado período não garantiu liderança futura.
O produto que trouxe uma empresa até determinado ponto não precisava ser o produto que a levaria para a próxima fase.
A Guru 2.0 e a disposição para substituir o próprio produto
[28:13] André apresentou a Guru 2.0 como um processo de disrupção interna
Foi nesse contexto que André mencionou o desenvolvimento da Guru 2.0.
A lógica apresentada foi a de uma empresa disposta a questionar e reconstruir aquilo que anteriormente tinha garantido o seu crescimento.
Em vez de esperar que outro player desafiasse o negócio, a organização procurou fazer esse movimento internamente.
Esse princípio teve particular importância em SaaS.
Produtos digitais acumularam rapidamente dívida técnica, processos históricos, hábitos organizacionais e pressupostos sobre clientes.
Quando ninguém questionou esses elementos, aquilo que antes funcionava como vantagem competitiva poderia transformar-se num obstáculo.
Cultura de dono exigiu disponibilidade para regressar à operação
[29:10] O fundador foi descrito como alguém que precisava estar preparado para voltar a intervir
A principal lição do retorno a Ítaca esteve na ideia de uma cultura de dono permanente.
Segundo André, o fundador precisava continuar disponível para vestir novamente a armadura, rever processos, desafiar decisões e reconquistar partes do próprio negócio quando isso se tornasse necessário.
Isso não significou centralizar eternamente todas as decisões.
Significou não confundir delegação com ausência.
A cadeira de CEO não representou um lugar de descanso depois da conquista.
Representou responsabilidade contínua sobre a capacidade de adaptação da empresa.
Conclusão
[30:07] No encerramento da reflexão, André Cruz regressou ao paralelo principal.
Empreender também tinha sido uma odisseia.
O caos apareceu. Os planos mudaram. Imprevistos surgiram. A equipa precisou de direção. Decisões desconfortáveis tornaram-se inevitáveis.
O elemento decisivo não esteve na possibilidade de evitar todos esses acontecimentos.
Esteve na capacidade de continuar a avançar apesar deles.
[30:33] Resistência, adaptação e liderança foram apresentadas como as competências fundamentais da jornada
A mensagem final concentrou-se em três capacidades: resistir, adaptar a estratégia e liderar até ao fim.
O Cavalo de Troia mostrou que inteligência estratégica poderia superar força bruta.
As sereias mostraram que foco precisava ser protegido contra oportunidades aparentemente irresistíveis.
Cila e Caríbdis mostraram que liderança também envolveu escolher entre alternativas imperfeitas.
Ítaca mostrou que nenhuma conquista eliminou a necessidade de continuar atento ao mercado e ao próprio negócio.
Para founders, CEOs e gestores de empresas SaaS, talvez essa tenha sido a principal ligação entre Odisseia e empreendedorismo.
Construir uma empresa relevante não dependeu apenas de encontrar uma boa ideia ou chegar primeiro a determinado mercado.
Dependeu de continuar a tomar boas decisões quando o caminho deixou de ser previsível.
E, tal como aconteceu com Odisseu, chegar a Ítaca foi apenas uma parte da jornada.
Continuar capaz de governá-la foi outro desafio.